A incrível história do barco fantasma que atracou em Cabo Verde e revolucionou a música local

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Corria o mês de março de 1968 quando um misterioso capricho do destino trouxe às águas do arquipélago de Cabo Verde, a 570 km da costa ocidental do continente africano, o futuro da música do país. Não era um artista em excursão, mas sim, centenas dos mais modernos teclados e sintetizadores de então, abarrotados em um navio fantasma que atracou feito um milagre na costa da então colônia portuguesa.

O equipamento saiu de Baltimore, nos EUA, rumo ao Rio de Janeiro, para uma exposição de instrumentos. Apesar do mar tranquilo e da promessa de uma viagem calma, no mesmo dia em que iniciou a travessia o navio simplesmente desapareceu, ressurgindo alguns meses depois em Cabo Verde, sem sinal sequer de qualquer membro da tripulação, mas com seu carregamento de instrumentos eletrônicos intacto.


O cantor Paulino Vieira utilizando o equipamento

Quando descobriu qual era o conteúdo que o navio trazia, o histórico líder anticolonial Amilcar Cabral não vacilou: distribuiu os teclados e sintetizados igualmente entre as escolas de Cabo Verde. Assim, Amilcar, além de liderar o que viria a ser a independência tanto de Cabo Verde quanto de Guiné Bissau, em um decreto sacramentou o rico futuro da música popular cabo-verdiana.

Selo em homenagem a Amilcar Cabral
Selo em homenagem a Amilcar Cabral

Da noite para o dia, uma geração inteira de jovens do país passou a ter acesso ao mais moderno equipamento musical de sua época. Cabo Verde, que já era conhecida como “Pequeno Brasil” por sua rica cultura musical, passou então a misturar seus diversos ritmos tradicionais, como mornas, coladeira, funaná e ferrinho, com a psicodelia futurista e a sonoridade dançante advinda daquele equipamento.

O resultado de toda essa mistura foi enfim compilado no disco Space Echo: The Mystery Behind The Cosmic Sound Of Cabo Verde Finally Revealed, lançado recentemente pelo selo Analog Africa. Estão na coletânea artistas como Abel Lima, Antonio Dos Santos, Elisio Vieira, Americo Brito, Os Apolos, João Cirilo, Tchiss Lopes, Quirino Do Canto, Pedrinho, Fany Havest, Bana, José Casimiro, Dionisio Maio e António Sanches.

CABOVERDE1

Hoje a música cabo-verdiana dos anos 1970 e 1980 cada vez mais provoca interesse e espanto por sua originalidade e força, expandindo-se para além da grande Césaria Évora, sua estrela maior – mas ela poderia simplesmente não existir, não fosse essa misteriosa operação do acaso.

O som, porém, esse não carece de explicação, mas sim de sentidos. Para os arqueólogos da música pop mundial, e para quem tem quadris, animo e coração, é um prato cheio.

© imagens: divulgação

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